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Este fim de semana fui ver a exposição do Almada Negreiros à Gulbenkien.

Será quase redundante dizer que achei extraordinária. Se já gostava do seu trabalho, passei a admirá-lo também pela quantidade que produzia.

Mas não vou fazer mais uma reflexão dedicada à sua obra, primeiro porque não sei o suficiente sobre arte, depois, porque já foram feitas bastantes e, ainda, porque tenho outra reflexão em mente. Acompanhem-me.

A exposição estava cheia. Cheia a abarrotar. E se isto começou por me incomodar, depressa me comoveu.

Domingo de manhã, bom tempo para ir para a praia e uma exposição de arte estava cheia de pessoas. Pessoas de todas as idades: mães com filhas já adultas; famílias com crianças pequenas, como a nossa; amigos aos pares, e em grupos maiores; avós com netos; estava até uma senhora cega, com o seu cão guia e um casal de amigos que se esforçava (com sucesso) para lhe explicar o que viam de forma a que, também ela, pudesse desfrutar do génio de Almada.

E agora vem a reflexão:

alguma coisa está a mudar em Portugal, e isso é bom. É como se o interesse dos estrangeiros nos fizesse tomar consciência do que temos. Como se nos tivesse ajudado a olhar com novos olhos para tentar ver o que eles veem. Como se estivéssemos agora mais orgulhosos do que é nosso, do que fazemos, do que somos. Faz-nos dar valor.

Com tanto que temos passado por aqui, com tanta pancada e desilusão, talvez tenhamos desenvolvido com o nosso país uma relação parecida com a daqueles casais que estão juntos há muito tempo e a quem as arrelias da vida acabaram por alienar e fazer com que se transformassem em “mobília” um para o outro.

E assim entra a segunda parte da reflexão:

começam por deixar de acompanhar as mudanças em cada um, como se acreditassem ser estáticos. Como se não evoluíssem (ou, até, involuissem), todos os dias, com todas as experiências, por mais insossas e repetidas que sejam.

Afastam-se, desinteressam-se, esquecem-se um do outro e até do que os juntou. Apagam-se enquanto casal.

E, então, vindo do “espaço”, aparece um “estrangeiro” que repara naquela “mobília”, a valoriza e a faz sentir-se bonita, interessante e cheia de potencial. Nessa altura, o outro acorda da sua dormência e volta a olhar como no primeiro dia, ou na pior das hipóteses- o último. E percebe que afinal, ao seu lado estava arte. Sempre estivera arte. Só que ele escolheu não ver.

Finalmente, a conclusão da reflexão:

acordemos então todos, para o que temos de melhor. No mundo, no país, na cidade, ou em casa. Estimar é preciso. Cuidar, é preciso. Escolher tudo isso, é preciso.

Nós sabemos, não é necessário que ninguém nos venha dizer.

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