Marta

Marta Cruz, 34 anos, licenciada em urbanismo, apaixonada por arte e fotografia.

Quando chamada a eleger o seu primeiro amor, Marta hesita entre arte e urbanismo mas decide-se pela primeira, já que para além de ter iniciado aí o seu percurso académico, foi também onde encontrou respostas para as dúvidas e angústias que a assaltavam na adolescência, uma idade que descreve como  a “idade das trevas”.

Mas o romance com a arte começou ainda em criança, através da fotografia. Os pais incentivaram-na e deram-lhe sempre muita liberdade para experimentar o que quisesse, sem nunca lhe impor um caminho. Talvez por isso, também tivesse experimentado o desenho e a escrita.

Quando recebeu uma máquina digital pôde explorar com à vontade ainda maior as suas capacidades e chegou a fazer um blog onde completava as fotografias com histórias que inventava. Isto numa altura em que a internet ainda não andava no bolso de toda a gente.

“Hoje em dia acho que se olhasse para mim naquela altura pensava: esta miúda é um bocado ridícula! Porque eu nunca tive medo de experimentar o que me apetecia.”

O que a Move

Move-a a paixão pela arte e a vontade de despertar nos outros essa paixão.
A apatia que diz sentir no publico português em relação à cultura em geral, entristece-a. Para ela,“a arte desperta emoções…faz-nos sentir… e, por isso, é fundamental que exista  na vida das pessoas.”

Defende que a sua democratização é necessária. E acredita que a sua exposição em qualquer lugar, real ou virtual, que não uma galeria ou museu, contribui muito para que isso aconteça. No entanto, para a curadora, estamos ainda numa fase de “de transição”.  Um momento inédito em que as redes sociais e a arte urbana dão exposição a artistas que noutras circunstâncias teriam  dificuldade em ser vistos.

-“Hoje, qualquer pessoa que sinta essa vontade, pode produzir arte e ser artista” – diz. E adianta-se à pergunta:

“Se isto desvaloriza? Talvez, às vezes. Mas o que traz de bom  é superior a isso. Claro que é preciso olhar e tentar perceber se pode ser considerado arte, ou não. O meu critério é : desperta-me alguma emoção? Boa ou má? Faz-me sentir curiosidade? Se sim, então é arte. Claro que depois tenho que olhar para o lado técnico mas, antes de mais nada, para mim a arte tem que fazer despertar emoções.”

O caminho pode ser  complicado e admite até que é preciso algum cuidado.
No entanto, afirma:

“É bom. Não traz nada de mal. A arte é abstrata, cada um pensa o que quiser. Eu tenho o meu critério.”

Acredita que este caminho permite que mais pessoas se “mostrem” enquanto artistas.

“Estamos, na era do “Do it yourself”, o que faz com que mais pessoas acreditem que podem fazer mais, experimentar mais…e aí descobrem-se às vezes talentos muito bons.”

Arte é AMOR

Quando lhe perguntamos se é possível arte sem AMOR, é categórica a responder que não.
“A arte é amor ao que se faz e para quem se faz. Não é possível que exista sem amor, ou sem tudo aquilo que nos faz criar… mesmo o caos… Tem que haver paixão. A arte levezinha não resulta. Aquela coisa de fábrica que tem um molde que se repete, isso para mim não é arte. Não foi feita com emoções, não pode despertar emoções. É uma fórmula. É como fazer um bolo em que se fica meses e meses até encontrar a receita perfeita e a partir daí é só repetir. Perde-se a  pica a fazer aquilo. Não funciona”.

Amor da sua vida

Ainda está a descobrir qual o grande amor da sua vida. Se a arte foi o primeiro, para Marta, a curadoria, neste momento ainda é uma paixão que, como qualquer paixão tem que evoluir para amor,  para ódio, ou para indiferença…
Explica que isto lhe aconteceu por acaso…surgiu e ela ficou entusiasmada, como se fica com as paixões. E também como nas paixões, a sua relação com a curadoria é um bocadinho caótica.

 –“Estou sempre a pensar se estou a fazer bem ou não, e acho que é isso que ainda me alimenta. Ainda não passou para outra coisa”.

É uma relação onde sente que dá muito de si e, ainda assim, consegue receber mais.

-“Descobrir outras visões, ter a possibilidade de entrar no mundo de pessoas com uma sensibilidade diferente, como os artistas, muitos dos quais ficaram meus amigos…com isso aprende-se muito. Descobrem-se outras visões. Este é um trabalho que me permite conhecer coisas novas e formas diferentes de fazer arte que, provavelmente, de outra forma não conheceria.”

Uma TARA

o projeto TARA – True Artist Run Art

Uma galeria que não é uma galeria porque não tem espaço fisico, fixo. Existe onde e quando a curadora considerar que o trabalho de determinado artista deve ser exposto.

Surgiu porque “estava farta de crianças chatas…”. Decidiu então, gerar e criar a sua própria “criança”  que imagina a crescer rebelde e provocadora porque, garante –“isso faz falta! Coisas que provoquem reações, que incomodem, até. Que agitem os paradigmas do “suposto””.

É um projeto seu que, no entanto, acredita, não é para si,  “só dará frutos daqui a muito anos.”  Será para os seus filhos ou netos. Esse é, pelo menos, o seu objectivo.

“A tara é mesmo uma tara! Dos projetos que tenho é aquele a que sou mais apegada. Apesar de não ser muito apegada às coisas. Por enquanto a Tara é só uma semente que espero que faça nascer mais e melhores coisas. Mas, já não é para mim. Ainda temos um longo caminho a percorrer enquanto sociedade para chegarmos onde será possível aquilo que imagino para a tara. 
Tem que se começar por algum lado. As coisas demoram tempo a crescer e devem demorar. O imediato que vivemos hoje é “fake”. Tudo tem uma duração muito curta e depois é uma desilusão. Passamos da euforia ao nada num instante.”
Como forma de evitar isso, Marta defende a dedicação e o trabalho, assim como a paciência e o tempo.
“É como tratar de uma horta e outras coisas que os nossos avós nos ensinaram: é preciso plantar, regar, cuidar. Como o amor, também! O mundo pode andar muito rápido, mas há coisas que não mudam e nós esquecemo-nos muito disso. Eu também me esqueço às vezes mas, quando estás a criar uma coisa de raiz como a Tara, queres mesmo que demore tempo. Porque, se nasce e de repente já tem 18 anos, há qualquer coisa que está errada. Este foi o primeiro projeto em que senti isso, deve ser mesmo como quando temos uma criança e pensamos: ok, cresce lá com o teu tempo, eu espero. Eu tenho paciência”.

 

Loucuras do AMOR

Quando lhe perguntamos qual a maior loucura que já fez por amor confidencia-nos algumas “parvoíces” – como lhes chama- que fez por namorados. Porém, a maior loucura que fez por amor foi dizer no atelier onde trabalhava há três anos, –“não venho mais!”

Uma decisão tomada no próprio dia de manhã mas da qual, sublinha, nunca se arrependeu.
“ Fiz isso por amor! Amor a mim. À pessoa que era e que se estava a perder ali. Na altura tinha alguns projetos e pensei que era por amor a esses projetos, mas não. Foi por amor a mim. E aos outros porque não me transformei num monstro!” – desabafa com uma gargalhada.

O Essencial

Para a Curadora/artista/Urbanista, essencial é “ter por perto as pessoas de quem mais gosto; agitação e consciência- Consciência de quem nós somos e de quem está ao nosso lado.”
Como é selectiva, não tem muitos amigos, mas os que tem são muito bons e, segundo nos garante, bem tratados e acarinhados por si.

“A solidão não faz bem a ninguém. Gosto de estar sozinha às vezes mas não gosto de me sentir isolada. Quando estás com pessoas ficas mais atenta à tal consciência do outro. Eu gosto de pessoas. Pessoas boas… e que eu escolho!”

O AMOR é

-“É muita coisa que eu não sei.” -Começa por responder pensativa para logo depois concluir:

-“ É muita coisa por descobrir. É um longo caminho.
Há vários tipos de amor. O amor é gostar de alguém ou de alguma coisa. Mas não há uma definição porque está sempre em construção. Como está muito na moda dizer: é um work in progress “

Obrigada Marta Cruz, por partilhares connosco um pouco do teu amor.

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